Poucos automóveis de produção em série são capazes de alcançar 300 km/h. Mas, nessa velocidade em quinta marcha, o motorista de um McLaren F1 faz algo inusitado. Aciona rapidamente a embreagem, ao mesmo tempo em que joga a alavanca de câmbio para cima, selecionando a sexta marcha. É isso mesmo: a 300 km/h, o motorista do “Big Mac” — como é conhecido entre seus entusiastas — ainda está trocando marchas. Para cima.
O F1 ainda é, quase dez anos após sua apresentação ao público (foi mostrado em Mônaco em maio de 1992), o mais veloz carro “de rua” do mundo. Em março de 1998, quando sua produção foi encerrada, a empresa o levou até a pista de provas da Volkswagen na Alemanha, onde alcançou 391 km/h e foi homologado pelo Guinness Book, o livro dos recordes, corrigido para 386,7 km/h. É também o mais caro carro de série de todos os tempos, custando 540 mil libras esterlinas na Inglaterra na época de seu lançamento e mais de um milhão de dólares nos Estados Unidos.
Gordon Murray, responsável praticamente só pela magnífica criação, ao lado de um protótipo do “Big Mac”, como é conhecido entre os entusiastas
Nesse tempo de culto ao coletivo e menosprezo às capacidades individuais, é interessante saber que o F1 saiu da cabeça de apenas uma pessoa: Gordon Murray. Quem acompanha as competições de Fórmula 1 já o conhece. Esse sul-africano projetou carros que transformaram tanto Senna quanto Piquet em campeões. Não importa que várias pessoas tenham contribuído para o carro, o Mc F1 é criação de Murray e de mais ninguém.
Ron Dennis e Mansour Ojjeh, os donos da McLaren, perceberam uma boa oportunidade de negócio nas idéias de seu engenheiro-chefe. Em 1989 nascia a McLaren Cars, com o objetivo expresso de criar o mais fantástico carro-esporte de todos os tempos.
O melhor para os entusiastas O F1 deve ter seu desenvolvimento acompanhado para se perceber como ele foi e é importante. Carros mais velozes certamente aparecerão — a Bugatti vem até com seu EB 16/4 Veyron de 406 km/h –, mas é difícil imaginar um carro mais bem pensado e mais interessante para os entusiastas. As premissas do projeto eram de dar água na boca: deveria ser desenvolvido o melhor carro do mundo para o motorista entusiasta, não importando o preço de venda.
O melhor carro-esporte que se possa ter, não importando o preço: o foco do projeto, plenamente atingido
No início do projeto, Murray ditou objetivos de peso e dimensões para cada subconjunto do carro. Ele não acredita em enormes departamentos de engenharia: para projetar um automóvel, segundo ele, basta um pequeno grupo de pessoas focadas e com objetivos claros. E prova a eficiência disso: o F1 foi projetado em três anos por apenas oito pessoas, contando Murray e o engenheiro/estilista Peter Stevens (hoje o principal executivo da MG Rover).
E Stevens só começou a desenhar o estilo do carro após o túnel de vento. Numa profunda percepção do que é realmente o trabalho de um estilista, ele afirma que cada veículo, por seu projeto, deve ter um desenho básico que se define devido a sua função — só depois desses parâmetros definidos é possível liberar o artista dentro de cada projetista. Diz ainda que se você começar a desenhar muito cedo, o carro vai ser moldado a seu desejo estilístico, o que não seria correto. Grande diferença da prática usual na maioria dos departamentos de engenharia, que recebem um mock-up e a tarefa: faça isso funcionar.